Dona Maria trabalhou 32 anos na roça antes de migrar para a cidade. Ao pedir a aposentadoria, anexou notas fiscais e ficha do sindicato rural — tudo o que tinha. Recebeu um indeferimento automático em poucos minutos. Nenhum servidor leu seus documentos: um sistema de inteligência artificial decidiu por ela, e decidiu errado.
Casos assim deixaram de ser exceção. Auditoria interna do próprio INSS mostrou que, no primeiro semestre de 2025, dos 543 mil pedidos analisados só por via eletrônica, mais da metade — 51,57% — foi negada automaticamente, sem intervenção humana.
Diante disso, o Tribunal de Contas da União determinou que INSS, Ministério da Previdência e Dataprev reformulem o modelo em até 180 dias.
O problema não é a tecnologia em si, mas o uso que se faz dela. Os sistemas de IA do INSS cruzam dados do Cadastro Nacional de Informações Sociais, mas ignoram boa parte do que o segurado anexa: comprovantes de trabalho rural, laudos de insalubridade, perfis profissiográficos.
Se o formulário não é preenchido como o algoritmo espera, o pedido cai — mesmo com provas robustas em anexo. Quem não domina a burocracia digital paga o preço mais alto.
A mesma auditoria reforça o tamanho da falha: numa amostra de 261 indeferimentos, 110 traziam divergências entre o que o cidadão declarou, os documentos enviados e a base oficial — sinal de que o sistema falha em orientar quem está do outro lado da tela. Em mais de 83% dos casos, havia distorção entre a renda informada e o valor do benefício concedido.
O resultado é um efeito cascata: enquanto o INSS comemora a fila menor de novos pedidos, cresce a fila de recursos administrativos e ações na Justiça.
Quem tinha direito ao benefício precisa contratar advogado, esperar meses e provar de novo o que já havia provado. Idosos e pessoas com deficiência sequer entram na fila de perícia enquanto o sistema não os processa.
Eficiência não pode ser sinônimo de descarte de direitos. A Constituição exige que toda decisão administrativa seja motivada — e um indeferimento automático, sem explicação compreensível, fere esse princípio.
A tecnologia pode ajudar a destravar a Previdência, mas sem revisão humana, transparência nos critérios e canais reais de defesa, o algoritmo deixa de ser ferramenta de eficiência e passa a ser obstáculo entre o cidadão e um direito construído ao longo de uma vida de trabalho.

Cláudio Gasparini, advogado. Foto: Acervo pessoal
*Artigo escrito por Cláudio Gasparini, sócio do escritório Almeida Advocacia, Cláudio Gasparini é advogado especializado em Direito Previdenciário. Com informações Folha Vitória. Instagram: claudiogasparini.adv
