Não é difícil encontrar mulheres que se sentem profundamente sobrecarregadas nas mais diversas funções que ocupam no dia a dia. Seja por necessidade, por amor à família, pela herança da educação recebida ou pelo peso silencioso do machismo estrutural, a exaustão feminina frequentemente ultrapassa o cansaço físico e toca a alma.
São mulheres que vivem a dor de se sentirem invisíveis ao fim da jornada — não acolhidas, não ouvidas, sem um abraço genuíno que valide suas lutas. Elas habitam um ciclo repetitivo: recomeçam todos os dias sustentando as responsabilidades que lhes cabem, entregando o melhor de si e, ainda assim, deitam a cabeça no travesseiro com a cruel sensação de que não fizeram o suficiente.
Na clínica, observamos que esse sentimento de insuficiência nasce da tirania de um ideal de perfeição inalcançável. É o nosso Superego (aquela voz interna de cobrança) operando de forma rígida, sussurrando que precisamos silenciar nossos próprios desejos para dar conta do desejo do outro.
Um ponto crucial nessa engrenagem é a armadilha de condicionar a própria existência à validação emocional externa. Quando dependemos exclusivamente do olhar do outro para nos sentirmos valorizadas, colocamo-nos em uma posição passiva, ficando à mercê de reconhecimentos que nem sempre virão.

Sem uma parceria real para dividir o peso da rotina, e sem o retorno afetivo desses esforços, a frustração crônica, a ansiedade e o estresse encontram um solo fértil para crescer, esvaziando a nossa autoestima.
Quando pensamos em saúde mental, o cuidado diário para consigo mesma vai muito além de um momento de descanso; trata-se de um resgate da própria subjetividade. É o exercício corajoso de respeitar o que se sente, aprender a estabelecer limites saudáveis e, acima de tudo, escutar as próprias emoções em vez de recalcá-las.
Nem sempre receberemos do entorno aquilo que acreditamos merecer. Por isso, o movimento de virada começa quando a mulher compreende que ela tem o direito inalienável de existir por inteiro, de ser vista em sua singularidade e de escolher os seus próprios caminhos, deixando de ser apenas uma engrenagem na vida alheia para se tornar a autora da sua história.
É através desse reposicionamento subjetivo que se torna possível fazer escolhas conscientes, alinhadas ao que verdadeiramente traz bem-estar, equilíbrio e, principalmente, o direito de voltar a desejar.

** Psicanalista/Psicóloga, CRP 06/236284 - Saúde Mental e Emocional da Mulher, Colunista, Formada em Letras, Palestrante Especialista em Inteligência Emocional, Autora do Ebook Como ser um Psicanalista. Instagram: @psi.monicabello